Pe. Janivaldo Alves dos Santos, cmf, há três anos como missionário em Moçambique, África, traçou-nos alguns
depoimentos sobre seu trabalho com aquele povo tão carente
de solidariedade, para que possa se desenvolver
dignamente como pessoa humana.
As semelhanças do povo moçambicano com o povo brasileiro são grandes quanto à alegria, disponibilidade, simplicidade, etc., mas a grande diferença que tenho notado, principalmente nos cristãos, é que são de fato 100% assumidos, o que não acontece no Brasil, onde a grande maioria dos cristãos é apenas de nome. Esse comprometimento leva as pessoas a caminharem 40 quilômetros para participar de uma reunião da Igreja, alguns de bicicleta, mas a maioria a pé. Na Páscoa houve uma reunião com 75 casais e muitos deles caminharam tudo isso para estarem ali. Embora seja minoria no país, o católico é muito engajado. E isso faz a diferença.
Moçambique vem sendo evangelizada desde 1950, quando as congregações começaram a chegar. Ainda estão nesse processo de formação e não têm uma noção clara do que seja a Igreja como um todo com o mundo. Igreja para eles é ainda o que se passa no seu universo do dia a dia, os ensinamentos que os missionários passam. Como sempre falo, são fiéis e sempre atentos em nos observar para aprender. Nossa responsabilidade é essa: a imagem que vamos passar de Jesus Cristo é a de libertador, para que eles possam se comprometer com essa Igreja.
Aquele povo busca na Igreja cristã, em um primeiro momento, o convívio social, o seu próprio reconhecimento como pessoa. Até bem pouco tempo muitos não tinham nem registro de nascimento e, sem documentos, buscavam ao menos seu cartão de cristão. Na Igreja eles têm participação e o reconhecimento social. Um exemplo claro são os velórios, quando muita gente comparece para consolar os familiares: é uma maneira de reconhecimento da pessoa pela comunidade.
O povo moçambicano tem muitas carências, sobretudo na área de formação. Das 200 comunidades existentes, cada uma tem em média 15 ministeriados, entre coordenadores, catequistas, encarregados das pastorais, etc. Para isso precisam ser formados e não se tem estrutura para isso. A maioria é analfabeta e desestruturada por causa da guerra civil que acabou há apenas 15 anos. Procuramos com simplicidade levar o conhecimento de Jesus Cristo; e, como diz a Bíblia, ninguém ama aquilo que não conhece. Por outro lado, há desafios imensos com relação à cultura, que às vezes nos choca. Lá, a poligamia é natural, e temos de levar uma evangelização com o fundamento monogâmico da Igreja. Por isso se torna um grande desafio, principalmente para os que foram criados dentro dessa cultura. A educação moçambicana é matrilinear, quem tem domínio total na educação dos filhos é a mãe. O pai é apenas o genitor. Se a mãe morrer, quem tem a responsabilidade de continuar a criação dos filhos é o tio dos familiares da mãe, não o pai.
A formação humana e religiosa com consciência social caminham juntas. Procuramos passar para eles essa conscientização de que, se se desenvolverem na agricultura e no conhecimento, isso os ajudará a ter uma vida mais saudável. Até porque falarmos de Deus, que é Pai, e eles passando fome não é nada coerente. Há congregações que estão ali há 50 anos, já têm uma boa estrutura de voluntários que auxiliam nesse sentido. Há três anos iniciamos essa missão e só agora podemos visualizar a possibilidade de se buscar voluntários técnicos no Brasil ou em outros países — pessoas de boa vontade e alguma formação específica, sobretudo na agricultura e educação. Todos serão bem-vindos para esse compartilhamento com os moçambicanos, que certamente será uma experiência muito gratificante.
Encaramos a “conversão” para o Cristianismo como um processo espontâneo. Acredito que a melhor maneira de atrairmos novos adeptos é pelo nosso próprio testemunho, assim temos procurado agir. Temos frisado isso bastante porque, entre um cristão nativo têm-se dois pagãos, dois muçulmanos, são vizinhos entre si, e estão observando nossa maneira de viver e agir dentro do ensinamento evangélico, é a melhor certeza de se converter uma pessoa: o testemunho. Na Páscoa, só de batizados adultos foram 1.800. Lá os batismos acontecem só duas vezes por ano, no Natal e na Páscoa. Além disso, os casamentos, 350, de pessoas que já viviam juntas e que se oficializaram no religioso como cristãos.
Nossa missão em Moçambique é a de semear a colheita; cabe ao Espírito Santo realizar. O que Deus e a congregação querem de nós, o nosso carisma impulsiona para isso: ir pelo mundo inteiro levar a Boa-Nova de Jesus Cristo, levando em conta o mais urgente e oportuno. E digo para vocês que Moçambique é um país que está precisando muito dessa experiência, dessa presença missionária e de voluntários que nos ajudem. Hoje me sinto feliz, porque em 2006, quando lá chegamos, éramos apenas dois missionários; este ano, a província do Brasil enviou mais dois e o Instituto de Fraternidade Evangelizadora de Santo André, SP, da irmã Clara, enviou também duas missionárias consagradas. No momento estamos em Gilé, que é a sede da missão. Nosso objetivo agora é a expansão e fundar outra casa para facilitar o trabalho. Já estão aparecendo algumas vocações de lá mesmo, temos dois seminaristas. É uma esperança para dar uma resposta a essa Igreja em missão.”
Moçambique é um país em que 85% da população ainda permanece no Paganismo, 15% apenas são cristãos, entre evangélicos e outras religiões. Portanto, dos 20 milhões de habitantes, apenas 10% são católicos. No distrito de Gilé, província de Zambézia, onde fica nossa missão, com 127 mil habitantes e uma área de 8.875 km², formada por mais de 200 comunidades com 17 dialetos, embora a língua oficial seja o português, são poucos os missionários e muito trabalho a ser realizado; por isso as congregações e a Igreja veem essa urgência de colaborar com a evangelização na África.
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